quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Barco de papel


O lago, imenso, sereno, parecia um mundo.
Como aqueles mundos distantes dos telescópios e dos sonhos de astronautas. Quieto, misterioso, esperando pacientemente a visita de um explorador corajoso.
O menino olhava para o lago e viajava ali parado. Era melhor do que sonhar. De vez em quando, uma lufada mais forte da brisa encrespava as águas – um mundo adormecido que se lembrava de avisar: “estou vivo!” Ronco do dragão de são Jorge escondido em alguma cratera lunar a sacudir a superfície.
O pai do menino, a poucos metros, dormitava no banco do parque após ter lido o jornal.
O vento que mexia com as águas também atiçava as folhas do jornal. Um caleidoscópio em preto-e-branco de notícias alegres e tristes, mais tristes que alegres. Crianças de rua para quem as folhas do jornal são cobertor, pessimistas para quem as novas da política são o fim dos tempos, desempregados para quem as letras miúdas dos classificados gritam que não há vagas.
O menino já aprendeu a ler, mas, no caleidoscópio de papel, ainda prefere as imagens. Quadrinhos, futebol. Ou personalidades sérias nas quais um bigode desenhado a lápis cairia muito bem.
Mas o menino olhava para o lago. O lago mostrava seu rosto ao menino. No reflexo, os retratos do lago e do menino se misturavam.
Então, o vento. Sem força para arrepiar o menino, mas sacudindo sutilmente o lago. Os retratos na superfície d’água se desmancharam. E o menino se sentiu sozinho.
O mesmo vento, brincando de passar as folhas do jornal largado na relva, desvendou ao menino as páginas do miolo. A capa do segundo-caderno. Cores! Nosso menino não hesitou, também não pensou muito. Com a naturalidade das crianças, a folha do jornal estava em suas mãos. O destaque do dia era para um artista que vivia recluso numa ilha, mas isso não importava muito. Naturalmente, nas mãos do menino, a folha foi dobrada, desdobrada, vincada, dobrada de novo e de novo. Virou um barquinho de papel. Um barquinho de papel frágil e trêmulo, mas que importava? Um barquinho de papel colorido, com uma proa de vermelhos e amarelos e a foto do artista ermitão lá no topo.
O ar se aquietou por um instante, como se carregado por aquela atmosfera solene das grandes inaugurações. Enquanto isso, um gesto fluido e espontâneo do menino lançou delicadamente o barquinho n’água. O barquinho pairou, parecia esperar fogos de artifício ou salvas de canhões que não vieram (até mesmo o dragão de são Jorge repousava, lembrem-se). Então, com o retorno da brisa, o azul do lago se ondulou. O barquinho oscilou, enfunaram-se suas velas imaginárias. E, num caminho de ziguezague, tomou lentamente o rumo da aventura.
O menino olhava para o lago e para o barquinho que se movia. Viajava. Era melhor do que sonhar. Então, antes de se enfadar, o menino se levantou mais uma vez e se afastou do lago: ouvira o ressonar do dragão a lembrá-lo de que estava na hora de vestir sua roupa de astronauta para explorar a Lua.
Quando o pai do menino acordou, o Sol já se abaixava querendo tocar a água. Esfregando os olhos sonolentos, não viu a Lua que surgia do lado oposto nem o menino que brincava. Seguiu os passos do jornal aberto, notícias cinzas espalhadas sobre a grama. E viu, afastando-se em ziguezague no lago, um barquinho seguro de si que aguardava o Sol para deitá-lo em seu colo, enquanto coloria de amarelos e vermelhos a água que ficava para trás.

texto do Edu, barquinho da Dani e inspiração de ambos.

Um comentário:

leide disse...

Parabéns Romilço,
Vc é grande sucesso!